Antro Particular

21 Novembro 2009

Chama o barbeiro de volta

William Waack foi ao Teerã conversar com o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. Em quase todas as respostas, as palavras Brasil e amigo são pronunciadas em uma fala baixa e lenta, atenta ao entrevistador. A cordialidade traduz o que deverá ser o encontro na próxima segunda entre Mahmud e Lula. O presidente de lá aceita nossas críticas sem muito se dar ao trabalho de rebatê-las. Os iranianos adoram o estilo dos nossos jogadores de futebol, revela em doce sorriso. Só que a doçura diabética insiste sobre a chacina nazista ser um problema restrito europeu, que os gays vão acabar com a humanidade e gerar novas doenças, que devemos dar-lhe as mãos e caminhar pelo futuro e independência nuclear.

As diferenças entre os dois presidentes são muitas e nenhuma. Ambos, quando sem respostas, voltam aos campos de batalha vestindo chuteiras. Quem não se lembra de alguma das particulares metáforas futebolísticas da barba tupiniquim? Também a barba dos aiatolás optou por esse caminho em meio ao espancamento do povo, enquanto se esforçava para se manter na cadeira de titular após sua reeleição. Talvez devêssemos marcar esse encontro no Morumbi, pelo menos nesse campo faz-se necessário a presença do árbitro, já que em Brasília, convenhamos, as apostas estão manipuladas, desde o início, para o empate.

20 Novembro 2009

voltei

Tenho sumido pela junção de dois fatores: trabalho e cansaço. Mas segundo os exames, o corpo ainda dá conta de um pouco mais. vou sobreviver...
Segue um resumo das últimas atividades.
E, enquanto termino o livro, fico devendo a crítica sobre Cacilda!!
beijos
RUY FILHO

memórias recentes 3: Encontro Performance

No blog da Cia. de Teatro Antro Exposto, o clique e o olhar de Patrícia relendo os trabalhos que participaram do primeiro encontro. Em breve, as fotos do segundo, realizado semana passada. E avisarei aqui quando o blog do evento entrar no ar.

memórias recentes 2: Lado B


A coisa toda começou com um telefonema. Não foram necessários mais do que dois minutos para que Ivam Cabral aceitasse a participação do Centro Cultural Rio Verde no abrigar do Satyrianas Lado B. Poucos dias depois, o celular tocava sem para com números estranhos! Eram amigos, conhecidos e não que gostariam de participar. Atores compositores, atores músicos... O Lado B surgiu como o outro lado de um vinil, o lá de lá da cidade além da Roosevelt. Em duas noites lindas, de céu marcante, mais de mil pessoas passaram pelo CCRV para acompanhar os shows. Sem falar em três inícios: Desbunde, Dandy e... Paula Cohen. Pois é, fizemos bem em insistir! Ano que vem terá mais. O que era festa virou uma deliciosa obrigação!

mémorias recentes 1: Elsinor em Planta Baixa

Nos apropriamos de Hamlet da maneira mais irresponsável possível. Porque era preciso trazê-lo à nós. Porque era preciso conduzir o público ao seu encontro. Foi assim que a Cia. de Teatro Antro Exposto transformou o primeiro dia da Tenda Residência, durante o Satyrianas 2009, em uma jornada pelo labirinto dinamarquês. Um espetáculo de 5 horas. Do lado de fora da tenda, uma febre de dez horas me consumia. Dentro, Guilherme, Diego, Tiago, Raiani, Patrícia, Priscila e Lígia davam vida à ousadia. Elsinore em Planta Baixa deverá estreiar no final do segundo semestre de 2010. É, estamos bem ocupados, e o cronograma é uma corrida diária com os compromissos. Aos que não estiveram na praça Roosevelt, resta esperar para vivenciar esse organismo espetáculo. E a loucura envolverá tantos outros cúmplices. Como Hamlet igualmente fez em sua vingança...



ambos os ensaios feitos por Patrícia Cividanes.

05 Novembro 2009

O Homem com a Bala na Mão - satyrianas

Algumas fotos da apresentação na noite de segunda. Teatro lotado, cadeiras extras. A estréia marcada para 2010 vem com tudo.









fotos de Bruno Zanardo.

29 Outubro 2009

Bem-vindos aos Satyrianas 2009

Começa nessa sexta-feira a nova edição dos Satyrianas. Muito trabalho e muita alegria em participar de maneiras tão diversas.
Nessa sexta, dia 30, a Cia. de Teatro Antro Exposto ocupa a Tenda Residência com o trabalho Elsinore em Planta Baixa, com todo o elenco e os convidados Lígia Tourinho, Johnnas Oliveira e Tiago Mello.
Depois, sábado e domingo, 31 de outubro e 01 de novembro, o teatro alcança a música em Satyrianas Lado B, reunindo diversos atores e atrizes convidados pela Cia. de Teatro Antro Exposto, no Centro Cultural Rio Verde.
Para terminar com chave de ouro, segunda, dia 02 de novembro, Paulinho Farias atua seu texto O Homem com a Bala na Mão, com direção minha, no Satyros 1, as 19h.
Teatro, música, artes visuais, debates, cinema, circo, humor, em mais de 70h.
Sintam-se todos convidados.


clique nas imagens para ampliá-las.
design gráfico: Patrícia Cividanes.

20 Outubro 2009

primeiro encontro de muitos, com certeza...

clique sobre a imagem para ampliar.

30 Setembro 2009

eu em livro?

O convite surgiu de repente. E foi aceito igualmente de imediato. Em breve, algumas das minhas peças serão publicadas pela Imprensa Oficial, através do projeto Satyros Literatura, pelo selo Primeiras Obras. Bacana, não?

convite aos performers

ainda este ano...

Os amigos não devem estar entendendo nada. Passo os dias cansado, esgotado por pensamentos e trabalhos que me exigem um tempo que não tenho. E mesmo assim assumo a direção de um monólogo? O Homem com a Bala na Mão não é simplesmente um texto. É daqueles que tiram o fôlego já na primeira leitura. Daqueles nos levam a construir toda a encenação logo no primeiro parágrafo. E, como se fosse pouco, escrito por alguém que aprendo a cada dia admirar mais. Paulinho Faria. Os ensaios correm tanto quanto o tempo. Mas em breve estaremos no Satyrianas e depois em temporada. Pra todos que gostam de sair do teatro com o cérebro e coração em chamas.








fotos do ensaio: Patrícia Cividanes

Patrícia Cividanes: e a amplitude do design

Uma das características que me fascinam em construir uma companhia de teatro é a possibilidade de expandir pela estética, ao limite de sua elasticidade, um conceito. A Cia. de Teatro Antro Exposto amplia, cada dia mais, esse pensamento atribuindo a cada espetáculo um estudo mais vertical sobre o trabalho do palco e fora dele. E não poderia ser diferente. Diversas são as áreas e as linguagens. E entre as mais relevantes está todo o pensamento sobre o design gráfico trazido por Patrícia Cividanes. Agora, aos que não conhecem tão profundamente suas pesquisas, muito pode ser encontrado em seu portifólio virtual. Uma boa viagem a todos...

O PAPA E A BRUXA: Hugo Possolo definitivo

Não gosto de comédia. Prefiro começar esse texto por aqui para deixar claro os motivos que me levam a escrevê-lo. As produções recentes, ao menos boa parte das apresentadas nas últimas décadas, lidam com o indivíduo de maneira óbvia, superficial, caricata em demasia. O riso que pleiteiam, quase sempre, alicerçam-se em preconceitos estúpidos e estruturas manjadas, artificializadas em recorrentes fórmulas do que se entende por engraçado. Enfim, não gosto mesmo de comédia.

Nos últimos dias voltei ao teatro para assistir pela segunda vez, em uma semana, a mesma montagem. Vi ao lado de algumas pessoas e, ao fim, dei-me conta de tantas outras que mereceriam estar lá. Quantas vezes fiz isso? Poucas, ou quase nunca. Nada é mais incomum em mim que a vontade incontrolável do retorno. Porque acredito estar na experiência do momento o encontro com o teatro. Tudo se dá na relação em que feito o público me disponibilizo ao diálogo com o artista. E, ainda que apaixonado, o contato me basta pelo veio único e preenche, por maiores que sejam as identificações alcançadas. Sendo assim, a incontrolável vontade do retorno revelou-se um questionamento: o que ali me transtornara a ponto de querer mais?

A peça em questão é O Papa e a Bruxa de Dario Fo, com tradução de Luca Baldovino e adaptação e direção de Hugo Possolo. A relação de poder eclesiástico é colocada à prova no instante em que o pontífice vivencia a estrutura mais marginal da sociedade.

Que a dramaturgia de Fo é um degrau acima da comum, sabemos. Há na estrutura de seus textos a perspicácia de quem conhece os dois lados: a técnica que torna a palavra instrumento cênico e o patético que constitui o mais humano em nós. Entre a sabedoria (em seu sentido ordinário do possuir o saber) e a ousadia de discursos ousados, Fo genializa a comédia no melhor sentido da palavra, oferecendo ao espectador a mais profunda reflexão sobre si mesmo, a sociedade e as estruturas de poder, sejam estas econômicas ou religiosas. Em O Papa e a Bruxa, a reunião das duas esferas - poder e religião - ri da fé como é consolidada em nossas carências, em nossas necessidades de pertencer a uma história maior. Nada mais patético que a busca pela sobrevida, pela existência paradisíaca, como se dar continuidade à existência fosse suficiente para nos traduzir mais próximos ao humano. Nada mais palhaço que descobrir no próprio homem a falência de sua humanidade.

E é aí que a montagem dos Parlapatões vence a comédia e se faz diálogo. Hugo Possolo descostura as dobras frágeis do riso, capazes de levar o espectador a compreender a si mesmo pelo ridículo, e faz, de maneira eficaz, uma provocação benéfica ao bom senso e aos nossos valores. Poucas vezes assistimos comediantes que utilizam o riso como exposição do próprio espectador. E esta é a vantagem de Hugo ser, antes de qualquer coisa, palhaço. Daqueles que não precisam mais de estereótipos históricos ou narizes vermelhos para nos conduzir ao picadeiro.

Sem sombra de dúvida, O Papa e a Bruxa, e precisamente o Papa de Hugo Possolo, é um de seus melhores trabalhos. Maduro, consistente, eficiente. Daqueles que, antes de ser ator, é artista e faz de sua arte força de ação para elevar o trabalho ao patamar de discurso. Discurso esse que se manifesta amplificado na capacidade de Hugo em compreender as entrelinhas, os subtextos, dar vazão aos timbres e olhares.

O Papa e a Bruxa resolve a cena cômica do instante e serve de modelo àqueles futuros profissionais do humor. São 18 anos de Parlapatões. E a maturidade chega em formato definitivo. Não gosto de comédia, insisto. Mas aprendi a rir de mim mesmo e me olhar no espelho um pouco mais envergonhado.

Guia da Semana - entrevista

Experimentando teatro

Direto do cenário alternativo de São Paulo, o Grupo Antro Exposto conversa com o Guia da Semana sobre como é viver de arte experimental no Brasil, critica leis de incentivo e peças stand-up.


Por Marcus Oliveira e Maria de Luna

Por trás de espetáculos realizados em grandes cidades como São Paulo (que possui em média mil peças por ano) existe um outro cenário não muito conhecido pelas grandes plateias. Ao contrário das mega-produções, muitos grupos batalham cotidianamente para se manter vivos e divulgar sua arte ao grande (ou nem tanto assim) público. Por meio de parcerias ou até favores, diversas trupes teatrais são formadas com nomes desconhecidos. Com o espírito de fazer do simples fato de ir ao teatro um evento único para o espectador surgiu o grupo
Antro Exposto.

Com rostos bonitos e cercados de muito trabalho, a companhia iniciou suas atividades em dezembro de 2007, por uma realização do diretor Ruy Filho. Formada por Diego Torraca, Guilherme Gorski, Giuliana Rocha, Tiago Torraca, Gabriela Rosas, Raiani Teichmann, Priscila Nicolielo e Patrícia Cividanes, dirigidos pelo idealizador, o grupo traz no currículo peças como Entulho, Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensiblidade e ensaia para o próximo projeto EmVão, previsto para 2010.

Em um bate papo descontraído, o grupo revelou os bastidores de como é fazer Teatro Experimental no Brasil. Confira!

História do grupo

A companhia nasceu da vontade de experimentar teatro e pesquisar novas linguagens. O nome antro exposto é uma referencia ao nome do blog do diretor ruy filho, o antro particular, canal que gerou a intenção de experimentar novas ideias em vários formatos, contrastando pontos de diversas opiniões e submeter todos à experiência. Segundo o diretor Ruy Filho, as empresas patrocinadoras não entendem que o experimental pode se tornar o comum de amanhã. "Temos um público muito reduzido e as empresas não bancam, já que as peças têm uma visibilidade limitada. Leva tempo e esse período sem sustentação financeira é impossível de ser realizado. Ou seja, você precisa do dinheiro rápido para virar grande, mas se você se tornar grande muito rápido você deixa de ser considerado experimental, assim é difícil", pontua o idealizador.

Polêmicas

Viver de arte experimetal não é tarefa nada fácil para a trupe. "A gente se vira. Vivemos de parcerias, vamos nos adequando ao que temos em mãos. Cada um tem uma vida paralela ao grupo. Mesmo dando a maior importância a companhia", afirma o ator Diego Torraca. Dividindo espaço com espetáculo de stand-up comedy, na visão do diretor Ruy, a liberdade é algo benéfico na hora de fazer esse tipo de arte. "Stand up no Brasil parece cabide de emprego para ator que não conseguiu ter um grupo de teatro. Não tem nada e vai fazer carreira solo com 20 anos de idade, com piadas tiradas da Internet. Já que nos sustentamos fora daqui, não ficamos aprisionados a nada e ninguém e dessa forma podemos experimentar", atira R. Filho.

Perfil

Com rostos jovens e espírito de quem sabe o que faz, os atores não abandonam a possibilidade de enveredar por caminhos ainda não percorridos, porém, não cogitam a possibilidade de abandonar suas raízes. "Não discordo de uma pessoa que vá lá e faça Malhação e depois, no fim de semana, venha e faça o teatro dela. Eu faria novela, cinema e o teatro experimental, que é uma coisa que eu gosto. É tudo trabalho. Se você levar suas ideias e trabalhar dentro desses sistemas da forma que você acha correto, é válido", opina Raianni Teichmann.Já na visão de Guilherme, a cultura do ator é muito banalizada e muita gente que entra no meio quer fazer parte da filosofia de celebridade. "Todos já conviveram com pessoas assim. E são pessoas que não vão sobreviver. Se ela realmente quer isso, vai se aprofundar e conseguir chegar onde quer. Mesmo um grande ator pode trabalhar apenas na TV", afirma.

Pé na estrada

Entre altos e baixos, a companhia estreou seu primeiro espetáculo Entulhos em 2008. A peça causou curiosidade com a solo performance de Guilherme Gorski e contou com as vozes de Débora Falabella, Pancho Capeletti e Alberto Guzik. Ao contrário do imaginado, mesmo após estampar as telinhas na novela Duas Caras, o sucesso do personagem de Guilherme na dramaturgia não refletiu na plateia do teatro, mas sim em um outro tipo de público. "É legal isso das pessoas virem assistir à peça, não o cara da novela. A repercussão não trouxe o mesmo público para a peça. Era um espetáculo alternativo, performático, experimental e que não é muito comum de se ver no teatro de São Paulo", afirma o protagonista. Com a repercussão, o grupo pegou carona em Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensiblidade, que contou com a participação do músico Patrick Grant (compositor e diretor musical do grupo The Living Theatre). "Combinamos dele não ver a peça e eu não ver a musica até ele chegar aqui. E foi muito bom. Pensamos que ele ia até se sobressair a imagem do grupo, mas foi totalmente o oposto. Foi o primeiro trabalho dele com trilha no Brasil. Ele estudou português para chegar aqui e saber trabalhar bem com a gente. Ficou tudo pronto uma semana antes da estreia, masdeu muito certo", confessa o diretor Ruy Filho. O espetáculo rendeu temporada em São Paulo, participações no Festival de Curitiba e no Festlip (Festival de Teatro da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro).

Futuro

Para o próximo ano, o grupo pretende contar com novos trabalhos e envolver ainda mais pessoas na arte de fazer teatro experimental. Pra isso, ensaiam seu primeiro trabalho realizado em processo colaborativo, a peça EmVão. "Somos livres para criar as cenas e fazer do modo que achamos melhor. Estamos em processo de criação, jogando cenas e ideias que passam pelas nossas cabeças. Cada um traz algo escrito e realmente é feito de forma coletiva. Temos um apontamento, mas não sabemos onde vai acabar", adianta Diego Torraca.O grande diferencial desse trabalho, além do texto feito de forma coletiva, é a preparação, segundo o diretor. "Estamos trabalhando muito mais voz e corpo para essa peça. No Complexo não tínhamos esse tipo de trabalho com a voz, já agora estamos tendo essa preocupação. Estamos crescendo muito e cada dia mais, até descobrirmos o tipo de teatro que queremos fazer", ressalta Ruy. Ainda nos projetos futuros, o grupo pretende para 2010 estrear os espetáculos Re-in-gresso e Exilados. Além disso, não abandonam projetos paralelos como: o Antro Invadido, que trará artistas convidados a trabalhar por um dia com a companhia em ensaios abertos ao público, o Antro Literário que são leituras de peças, crônicas, contos e poemas e o conversa no Antro, um programa de rádio sobre política e cultura contemporâneas com convidados, realizado no Centro Cultural Rio Verde (Vila Madalena São Paulo), local onde ensaiam.Lei Rouanet e Vale CulturaCriadas para beneficiar toda e qualquer forma de fazer arte, os benefícios são subsidiados pelo Governo e ao contrário do que pareça, são mecanismos de duas vias. "Acho que a Lei Rouanet não funciona e deve ser reestruturada. A maneira como o Governo está distribuindo e o fato de decidir o percentual de desconto no imposto de renda das empresas vai manipular insatisfatoriamente de alguma forma. Preocupa a forma como será manipulada essa distribuição", destila o diretor.Já o benefício do Vale Cultura, aprovado recentemente pelo Governo, é benéfico na visão dele. Segundo Ruy, mesmo não sendo uma grande quantia (R$ 50,00 ao mês), já possibilita que uma pessoa que não se interessava em arte, passe a ver com outros olhos. "Já que está lá, a pessoa uma hora ou outra vai gastar. Que seja com um livro, filme ou qualquer coisa ligada à arte. Às vezes o cara economiza seis meses para ir com a família ver a peça da Marilia Pêra e esse é o sonho de vida dele, isso sim é política cultural", acredita.


FÓRUM

Você acha que o teatro experimental pode chegar ao grande público no Brasil?

Renata - SP11/09/2009 O teatro sempre esteve na mira dos moralistas. Que bom que é possível acabar com isso fazendo uso da arte experimental.
Ana Cláudia Tabalipa - Sampa11/09/2009 Gorski, te assisti em Entulho. Fantástico, grandioso. Muito mais que a Rede Globo pode te dar na noveleca do Juvenal Antena. Parabéns pelo trabalho. Estarei na platéia para ver Em Vão.
Wagner Siqueira - BH11/09/2009 Teatro no Brasil é luxo, as pessoas só admiram as superproduções, os grandes musicais. É lamentável!
Beatriz - Never Land11/09/2009 Eu gosto de teatro alternativo, mas nem todo enredo merece destaque. Assisti Complexo Sistema e gostei bastante, mas acho que para um leigo, a peça ainda é um mistério.
Marcelo Castro - Rio de Janeiro11/09/2009 Tudo depende do governo investir numa mídia decente para divulgar esses bons trabalhos. Se a gente esperar o boca a boca, vai demorar demais.
ana moura - são paulo11/09/2009 só se um milagre acontecer. Brasileiro tem tendência a ver no teatro só o que é popular, tem celebridade ou comédiazinha barata.

27 Agosto 2009

A teatralização do poder

Era cedo ainda quando alguém trouxe a notícia para a sala de ensaio de que o espaço dos Parlapatões e a Gambiarra foram silenciados por fiscais e policiais. À medida que os fatos eram narrados, perguntava-me se algo havia ocorrido com os homens durante meu sono na madrugada anterior. Era difícil acreditar que a opressão retornara de maneira tão leviana e desnecessária. Liguei para Márcia e Tuca com a expectativa de ser tudo um enorme exagero, mas o que escutei foi algo bem mais perigoso.

Nos Parlapatões a ousadia do fiscal chegou ao ponto de dar voz de prisão a uma garota que se incomodou com sua presença e, entre suas amigas, deve ter dito algo não muito agradável sobre o sujeito. A situação foi contornada e ela pôde dormir em casa, se é que o conseguiu. Na Gambiarra, a festa foi cancelada, o público expulso sem se quer ter a possibilidade de acertar o consumo, gerando enorme prejuízo. O assunto já foi amplamente discutido por diversos veículos, ainda que muitos tenham preferido se limitar à versão errônea e simplista dada pela fiscalização.

Fiscalizar é um exercício administrativo público validado em lei, cujo atributo deveria se limitar a avaliar o comprimento de regras comuns ao convívio em espaços públicos. Não sou contra a fiscalização, ainda que seja contrário a muitas das leis. Mas, uma vez existentes, só nos resta cumpri-las. Nos dois casos citados, a fiscalização surge em meio ao evento - claro, só é possível recolher os dados em tempo presente - pela tríada "acessibilidade para deficientes", "psiu" e "anti-fumo" - e devidamente agregada à exigência de alvará de funcionamento e sustentada pela presença de policiais.

Ainda que seja um dever, portanto, nada dá o direito da ação realizar-se através da truculência. Sobretudo, como foram ambos os casos, sem qualquer instrumento que oficialize a visita.

A garota que recebeu voz de prisão nos Parlapatões por comentar com amigos a presença dos fiscais no bar, não deveria ter se calado. Ao contrário, deveria ter igualmente dado ao sujeito voz de prisão por abuso de poder. Sim, porque não cabe ao fiscal, ao ser desagradado, sair por aí prendendo quem se sentiu atingido. E, sim, porque diz a legislação brasileira que qualquer cidadão está apto a prender quem quer que seja, desde que o outro esteja cometendo crime. No caso da fiscalização exercida em São Paulo, os crimes são muitos, e vão de abuso de autoridade, ausência de mandato judicial, constrangimento público, intimidação ilegal, uso desnecessário da força, não identificação do fiscal, não regulamentação e registro da visita da fiscalização.

Há uma enorme distância entre fiscalizar rigidamente e ser gratuitamente ostensivo. O curioso é que em poucos outros casos espalhados pela cidade se ouviu a mesma história. Em dezenas de outras ações, não há reclamações de proprietários e frequentadores. No caso dos Parlapatões e da Gambiarra, a curiosidade assume a face de serem ambos os espaços frequentados por atores. O que nos leva a pensar numa analogia entre o processo e a teatralização do poder.

Ao contrário do que diagnosticara Guy Debord na década de 1960, quando escrevera A Sociedade do Espetáculo, assistimos, agora, a inversão dos mesmos princípios. Debord expôs a nova face do poder partindo do pressuposto de que lhe serve a massificação das sensações para gerar controle através de atitudes e estruturas que permeiem a sociedade de maneira sensacionalista, dando-lhe dimensão maior à realidade, usufruindo de certo agigantamento das sensações para redimensionar a soberania do poder, levando a manipulação a se fazer indireta e infiltrada no indivíduo pela reconstrução do imaginário coletivo.

A opressão explícita vivenciada em São Paulo parte para a mesma necessidade de se fazer reconhecível, mas através da exploração dramática de suas ações, teatralizando a ação que, esgotada em si mesma, desfavorece o próprio princípio da manipulação e, sem outra saída, oprime gratuitamente abusando das funções, personificando o poder a sujeitos e cargos.

Há muita diferença entre ambos. Uma sociedade do espetáculo é aquela submetida ao exagero onipresente, imperceptível, que nos acostuma aos enxertos espetaculares e sensacionalistas para causar impacto emocional, levando o indivíduo a se acostumar e viciar-se pelo superlativo. Numa sociedade teatralizada, a verdade é relativa e o que assistimos e vivemos são ficções apoiadas em preceitos dramáticos de submissão exponencial do outro através do autoritarismo e da desnecessidade de direitos fundamentais.

Os fiscais que fizeram dos Parlapatões e da Gambiarra seus palcos são incapazes de perceber que em suas atitudes, na teatralização de suas presenças, servem a um poder totalitarista de dominação do imaginário, apregoando ao outro um sentido maior de submissão e conduzindo a sociedade ao distanciamento do que deveria ser tido por correto quando nos referimos ao poder público. Não há essencialmente a construção do respeito à função e sim sua imposição. Tampouco a descoberta pública da proteção responsável, mas sim a da incapacidade do poder em dialogar com as relações.

As invasões praticadas de maneira ostensiva revelam algo muito mais duradouro: não estamos aplicando as leis, estamos assistindo suas construções por caminhos tortuosos e impositivos. Ao que me lembro dos livros de história, a manutenção de qualquer silêncio leva o homem à falência de sua existência participativa em sociedade.

Como escrevi anteriormente, qualquer fiscal ou policial é bem-vindo a meu teatro, desde que tenha comprado um ingresso ou traga em mãos um mandato. De qualquer outra maneira, há que enfrentar suas arrogância e ousadia igualmente nas mesas de um tribunal.

10 Agosto 2009

sem entender...

Espetacularização do poder ou necessidade exibicionista de controle? O que acontece em São Paulo? Policia é bem-vinda ao teatro sempre. Com o ingresso em mãos ou mandato. De qualquer outra maneira, é autoritarismo gratuito.

04 Agosto 2009

Não é mais proibido proibir

Acontece uma vez. Depois outra. E se repete travestido em acontecimentos novos aparentemente sem conexão. As pequenas ações, as despercebidas, são praxes comuns no Brasil e não só aqui. Uma medida provisória, uma proposta aparentemente ingênua solta ao vento, supostas sugestões corretas etc. Dessa maneira, cria-se mais do que intenções, gera-se a absorção de costumes transformando casualidades em válida possibilidade de relação.

Vivemos uma época perigosa, quando o politicamente correto determina o sentido de participação responsável. Nada é mais incontrolável e manipulável que os desejos populares, e por serem muitas as necessidades e ausências estruturais coletivas acabamos por transmitir nossas ansiedades ao Estado, exigindo-lhe o puxar de volta as rédeas e o domínio dos descontroles que nos atingem de maneira brutal.

Cabe ao Estado, ao fim, situar-se frente tantas ansiedades sociais a partir de dois vértices fundamentais: punição e proibição. Diferentes por natureza e pelo trato de suas funções, ambos, aparentemente intrínsecos, na verdade perdem suas complementaridades no instante em que uma das pontas se revela ineficiente.

Viver uma estrutura democrática pressupõe liberdade de convívio, entendendo este como a percepção ética dos limites individuais para a constituição do limite coletivo. Não havendo por parte do indivíduo a compreensão de seus limites e obrigações, resta ao Estado reorganizar a ordem aplicando justiça aos arredios. Sabemos, desde sempre, e muitos são os exemplos diários, que, “quando ocorre”, a justiça é insatisfatória e ineficiente.

A incompetência pública (ou competência, dependendo de como se olhar o objetivo final) na desestruturação da educação levara o indivíduo a distanciar-se dos valores éticos. Sem compreender a perspectiva do limite próprio, torna-se impossível alcançar o coletivo. A incompetência (ou competência, redundantemente) no punir e a certeza da incapacidade da máquina pública no lidar com erros já previstos levam a não temermos as conseqüências. E a infeliz soma entre os dois pólos expôs ao Estado, como última possibilidade para controlar o indivíduo, a proibição.

Em outras palavras, abrimos espaço para que o Estado intervenha cirurgicamente sobre nossa liberdade. O Estado deixa de agir sobre as conseqüências de nossas ações para antecipar-se a elas.

Assim tem sido lentamente, ações a princípio desassociadas umas das outras, mas que constroem em nosso imaginário a proibição como necessidade natural, esteja ela no anseio de proteger a sociedade contra a violência em todos os seus aspectos, incluindo aí a do indivíduo contra si próprio, ou mesmo em supostas estruturas de recuperação moral.

A questão complica ainda mais no momento em que somos nós a exigirmos do Estado as criações de proibições, quase sempre por entendermos termos perdido o controle sobre nós mesmos. Feito o grito por ajuda ao qual é oferecido ao herói todo e qualquer poder. Aos poucos, a suposta solução torna-se a transferência de responsabilidade do indivíduo para o Estado, dando-lhe legitimidade para intervir de maneira legislativa e jurídica sobre o que deveriam constituir fundamentalmente os princípios éticos de cada um.

Retomando a idéia de que pequenas ações independentes se somam à semelhança de suas naturezas para intervir sobre o imaginário, exemplos recentes de proibições alicerçadas por aclamação popular são o uso obrigatório de cinto de segurança e a proibição do fumo em locais públicos. Em ambos os casos, assumimos a necessidade das proibições oficiais como projetos para nosso próprio bem-estar.

O não percebido, todavia, é que, em ambos os exemplos, a ação do Estado antecede o direito de escolha. Se o uso de cinto serve restrito a nós mesmo, não aplicando sobre terceiros qualquer conseqüência, então não deveria ser uma opção individual, reflexão responsável de cada um? E se tabaco, cigarro, cigarrilha, charuto, cachimbo, agem (como se sabe) sobre os não usuários, não deveria ser igualmente uma reflexão dos próprios estabelecimentos e freqüentadores o convívio com fumantes? Na maneira como é proposta a lei perco eu o direito de sentar com amigos fumantes em espaços que sempre freqüentamos. Tiraram-me o direito irresponsável de não me importar com minha saúde. Tal processo do que se entende por auxílio aos desvarios, na verdade se revela como totalitarismo em sua face mais óbvia.

A compreensão de que pequenas proibições são necessárias toma cada vez mais a perspectiva de boas ações, e, aos poucos, avançam em novos controles e imposições de limites e modos.

A mesma crise sobre o cigarro passa a ser discutida, por exemplo, sobre a necessidade de um personagem fumar durante um espetáculo teatral, já que o público absorverá passivamente as toxinas assim como em uma mesa de bar. Não me prestarei ao ridículo de entender qual deverá ser o órgão a analisar a validade em questão. O que me inquieta é perceber que a mera reflexão exista. Seguindo o mesmo raciocínio, então logo seremos proibidos do uso dentro de nossa própria casa por atingirmos igualmente os não fumantes, empregados, vizinhos e visitas. Afinal, qual a diferença entre um garçom e uma faxineira? Não terão os dois o mesmo direito à saúde?

A tal onda do politicamente correto redesenha o co-existir dilacerando diferenças e diminuindo pluralidades, e nada mais fascista que a higienização do costume e homogenização do viver.

Não existem mais gordos, tornaram-se obesos; tampouco velhos, mas indivíduos pertencentes à melhor idade. Ou deficientes, pois estes passam a se chamar portadores de necessidades especiais. Negros, cuja correção os rebatizaram por afro-descendentes. Quais? Os das proximidades do Saara ou de Angola? A África, aqui traduzida como única, há séculos convive com confrontos tribais e culturais entre povos que lutam pela legitimidade de suas identidades e diferenças. E nós, um povo formado pela mestiçagem, olhamos a todos e tantos feitos iguais, como se o continente africano fosse apenas de negros irmãos de mesma origem. O grotesco vai mais longe do que meramente o nomear e adquire juridicamente o tamanho de ser inafiançável, pior, portanto, que assassinatos e estupros, crimes quais, se o réu for primário, certamente responderá em liberdade, lembrando ainda que o condenado poderá ser liberto após um sexto da pena como prêmio por seu bom comportamento.

Pra quem ainda acha tais proibições incomparáveis, o que dizer das cidades paulistas que assumiram o toque de recolher aos adolescentes? Na incapacidade em educar os filhos e determinar qualquer respeitabilidade, os pais concluíram ser uma ótima saída proibir a permanência dos rebentos pelas ruas. Triste e perigoso exemplo de transferência de responsabilidade, conforme escrevi anteriormente. Outra? A concordância entre pais, especialistas e poderes públicos de que os viciados em drogas poderão ser recolhidos para clínicas especializadas à revelia tanto do usuário quanto da própria família. Ou as proibições das biografias escritas sobre Roberto Carlos e Garrincha que, apesar de não serem constestadas em suas afirmações, foram retiradas das pratileiras por não representarem os biografados da maneira qual se entende correta frente ao imaginário popular já construído. Ou o movimento pelo fim da nudez nas novelas, teatros e cinemas, iniciado por atores e atrizes, por entenderem que qualquer exposição corporal explicita o artista a incômodos e exageros, sendos os propositores do dito movimento incapazes de compreenderem o corpo como código simbólico e o nu como referencial narrativo. Ou a cidade limpa, de São Paulo, e a proibição da presença de outdoors. Ou os prefeitos que determinaram a prisão por vadiagem aos que por ventura permanecerem nas ruas sem qualquer ocupação, estimando o prazo limite de trinta dias para que consigam estar empregados. Como essas tantas outras proibições deverão ser acrescidas aqui ao tempo. Basta nos atentarmos a quantidade de vezes que os veículos de comunicação são proibidos de noticiar e relatar a rotina política.

Ora, aos poucos damos as armas aos monstros. Imagine uma sociedade onde o indivíduo pode ser punido pela maneira errada em se dirigir a outro, ou por ser considerado um perigo para si mesmo, ou por circular em locais e horários impróprios, pelo uso de substâncias lícitas em locais públicos, ou pela maneira como se mostra, ou por contrariar expectativas, ou relatar fatos, ou pela vontade de não fazer nada... Como falar, aonde ir, quando ir, como se portar, o que usar, com quem, onde, o que ler, o que e como consumir. Vendemos diariamente nossa liberdade pelo troco de uma suposta segurança. Assumimos a incapacidade de cuidarmos de nós mesmos, dos nossos entes. E dia a dia uma proibição aqui outra ali nos conduzirá à convivência perigosa com tal costume.

Nenhuma ditadura-censura é mais perigosa do que a silenciosa que conta com apoio popular. E enquanto isso, Sarney, Lula e Collor revelam-se gentis irmãos nos bastidores do planalto e microfones de todo tipo. Qualquer prognóstico agora certamente será ingênuo ao que há de vir. A única preocupação, verdadeiramente, é que, quando ele puder de fato ser enxergado, talvez já esteja calado por nossa própria cegueira.

19 Julho 2009

FESTLIP: a redescoberta do fazer teatro

Cada olhar traduzia a ansiedade do reconhecimento e a expectativa pelo encontro. Aos poucos, os olhares esbarravam uns nos outros, fosse no saguão do hotel, no restaurante, nas calçadas de Copacabana. O sorrir tímido e meio desconfortável tornava-se padrão entre os artistas. Como começar uma conversa? Como não invadir a intimidade alheia se a única vontade era devorar o outro universo? Como não dizer bobagens nem expor ignorância? Os primeiros encontros entre os participantes do Festlip - Festival de Teatro da Língua Portuguesa - foram silenciosos, cúmplices, investigativos e, sobretudo, através do olhar.

Estavam lá Brasil, Guiné Bissau, Angola, Cabo Verde, Moçambique e Portugal, cujas presenças se estendiam também a convidados. A mãe-pátria, que durante séculos desenhou poder sobre as demais, agia livre do incômodo histórico, enquanto as filhas colonas observavam e intimidavam. Sim, é preciso lembrar que muitos desses países estão livres apenas agora, e que temos a sorte do abandono há séculos, o que nos determina mais independentes do passado.

Surge, aí, a primeira conclusão: não contamos mais nosso passado, não necessitamos reviver o ontem e o início, estamos livres das amarras históricas e, portanto, das culpas e dos julgamentos. Podemos nos lançar ao desafio da linguagem, redesenhar técnicas, abordar abstrações humanas e, a partir daí, dialogar com o mundo em seu tempo presente. Muitos dos outros países, não. Sobre o palco, a vontade se converte em possibilidade e necessidade em recontar a origem não mais pelo prisma do branco colonizador. Subir ao palco significa romper as armadilhas do impedimento, aproximar o homem de si mesmo, dando-lhe força para reencontrar-se e renascer.

Os espetáculos de Angola que estiveram no Rio de Janeiro foram assim, como se abanassem qualquer tradução para resgatar o original. Na perspectiva desse olhar que resgata o si, a ingenuidade técnica e estética sugere a vontade da fala. Por enquanto, querem poder dizer, gritar. Chegará, certamente, o dia em que o como surpreenderá o público. Como avaliar o trabalho de Guiné Bissau ao sermos lembrados que o país só possui uma única sala de teatro? Através da criação do Grupo de Teatro do Oprimido de Guiné Bissau, os artistas trazem para dentro da arena a necessidade do pertencimento. Trabalhamos com mutilados de guerra, me diz o diretor, enquanto os olhos grandes e amarelos absorvem as vergonhas dos meus. Moçambique e Cabo Verde já se soltaram das amarras em elaboradas dramaturgias e ótimos atores. Meninos ou adultos, os dois países conduzem a encenação e a palavra a outras experiências, e reparo sermos mais próximos a Portugal, ao teatro europeu aristocratizado pela vontade de construir conceitos próprios, com certo teor parnasiano em se utilizar a arte para falar sobre a própria arte...

Apresentação após apresentação, os países foram se encontrando. Uma cerveja gelada na praia, um violão e tantos ritmos, risadas em sotaques diversos.

O Festlip não quer reunir países e transformar tal reunião em estratégia de diferenciação para uma casualidade do marketing momentâneo. Na maneira como se organiza, se coloca, o foco maior é o encontro, a permanência das relações construídas ao longo de duas semanas. São necessários poucos dias para que os olhares se configurem abraços e conversas e nasça tamanha cumplicidade que se torna impossível não nos reencontrarmos amigos. Cada qual em seu continente, cada um com suas verdades, e o apaixonar-se pelo outro como viés fundamental.

Tantos são os festivais pelo Brasil afora, mas quantos, verdadeiramente, têm como princípio o intercâmbio entre pessoas? O Festlip não reúne espetáculos diversos. Vai além. Aproxima culturas, histórias, olhares. E não é à toa haver entre os artistas presentes alguém chamado Amor. Simples assim. Amor.

Ir a festivais é sempre uma grande diversão. Ir ao Festlip trouxe, de maneira essencial, a capacidade de olharmos para nós mesmos, provando ser possível organizar esses encontros indo além do comércio numérico de participantes e de curadorias exibicionistas que, quase sempre, interessam-se mais pelo artista do que a própria arte. Quem dera o exemplo e a vocação do Festlip atingisse definitivamente as políticas públicas em traduções mais responsáveis e menos narcisistas. Talvez isso provocasse uma deliciosa e incontrolável revolução.

08 Julho 2009

notícias do rio

Aqui tudo caminha bem e a correria é enorme. Não bastassem as apresentações, muitas conversas com outros diretores, atores e, agora, amigos. Hoje terminou o workshop com Miguel Seabra. Em uma hora começamos outro encontro com Kiki Dias e o Haddad. Não dá pra perder tempo. O festival é deliciosamente imperdível. No Antro Exposto estão fotos da apresentação e um trailler. Com todos os acertos, ganhamos a melhor qualidade de luz até agora e a maior cumplicidade da platéia.

02 Julho 2009

cresce o Antro Exposto

Saí correndo para vir ao Rio apresentarmos Complexo Sistema de Enfraquecimento da Sensibilidade e me atrapalhei em blogar uma das notícias mais incríveis. Incrível pela qualidade e pelas pessoas que são...
A Cia. de Teatro Antro Exposto agrega duas novas figuras, dessas especiais e únicas: Lárcio Benedetti e Alessandra Trindade. Estudiosos de política cultural com ampla atuação no mercado e no desenvolvimento de políticas culturais, ambos passam a acompanhar a cia. como CONSULTORES DE PLANEJAMENTO.
Pensar no futuro passa a ser agora uma responsabilidade maior para todos nós.

26 Junho 2009

festlip

workshop na CAL - Rio de Janeiro

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SESSENTA MINUTOS PARA O FIM: minutos preciosos

Muitas vezes somos condicionados a uma enfadonha rotina e a permanência excessiva dentro de sua estrutura acaba por nos distanciar ou impedir daquilo que realmente vale à pena. Escrevo isso, pois demorei muito tempo, mais do que realmente gostaria, para assistir a peça Sessenta Minutos para o Fim, do grupo Garagem 21, dirigido por César Ribeiro. E hoje percebo o quanto deveria ter me esforçado mais para sentar em sua platéia.

César me chama a atenção desde sempre. Ao menos, desde que comecei a ler sua críticas e blog. Há uma intensa sinergia entre nossos devaneios e conclusões. A maturidade violenta com que costumeiramente aborda as questões traduzia-o como um curioso inquieto devorador de música, cinema, política e teatro. Levado ao desejo antigo de compreender sua arte mais profundamente, chego ao teatro dois minutos atrasados, mas desta vez consegui entrar e permanecer.

Sessenta Minutos para o Fim reune Arrabal e Beckett fortalecendo a base de uma dramaturgia consistente e provocadora como pouco se vê na atualidade. A história de dois sujeitos sequestrados por um coelho e obrigados a representarem para um público inexistente, dá o tom preciso do universo dos dois dramaturgos. César, porém, vai além e codifica as exigências desse absurdo em fugas do naturalismo através da construção de corpos mais próxima à caricatura dos quadrinhos. E funciona. E bem. Recortadas, as cenas-imagens são bem definidas, estruturadas de maneira simples a partir do jogo teatral. Cabe aos atores sustentar a precisão perigosa entre o não naturalismo e o expressionismo. Ainda que a construção de Ulisses Sakurai seja mais eficiente do que a realizada por Paulo Campos, o espetáculo se sustenta tranquilamente na criatividade da história e na inteligência dos monólogos, sobretudo, e a deliciosa e divertida presença do Coelho em cena, vivido por Priscilla Maia.

O que César Ribeiro oferece ao seu espectador é mais do que uma narrativa maluca, exarcebada por referências e signos. Ao contrário. Na exatidão da palavra, na importância da música que ronda toda a atmosfera, o diretor-autor questiona a todos nós como podemos narrar o contemporâneo. Traz pelo humor e o tom non-sense a empatia do ridículo e recodifica o exagero em forma de teatralidade. Tudo alí é teatro. Tudo alí é visceralmente teatralizado. E, ao fim, parece nos arrastar à culpa de igualmente nos divertirmos com tantos absurdos.

Muitos outros autores e diretores têm se utilizado do confronto com a moral burguesa travestindo as ações em culpa. César diferencia-se pela perspicácia intelectual que faz com que a culpa seja estraçalhada em centenas de sentimentos, levando-nos a um labirinto perigoso da aceitação desprovida de parâmetros críticos. Assistimos e rimos. Entendemos os absurdos e continuamos a rir. Rimos das nossas próprias gargalhadas. E não notamos a obviedade de sermos nós os sequestrados pelo coelho, de estarmos acostumados a ausência do público, a solidão da idéia.

A platéia de César Ribeiro é específica. É preciso disposição intelectual para ir além da diversão burguesa de se estar no teatro e entender verticalmente o universo discursivo. E isso caracteriza e explicita a vocação de ser o Garagem 21 mais do que outro grupo de teatro. Há uma verdade maior nas intenções de Sessenta Minutos para o Fim: olhar nos nosso olhos e nos cobrar por sermos tão enfadonhos e patéticos. César exala a essência típica dos artistas inquietos e inconformados, dos criadores obsessivos. Isso por si só já deveria causar filas na porta do Satyros 2. E quem consegue imaginar qual deveria ser o tamanho da fila, então, quando se junta a essa figura um espetáculo curioso e arrasador?

Se sair de casa para ser mais inteligente incomoda tanto o público, então que este saia para se divertir com sua própria estupidez. Com um lugar a menos na platéia, aviso. Pois uma cadeira já é minha...

DESFIGURA: alguns gritos precisam ser sentidos e não ouvidos

DesFigura, espetáculo em cartaz no espaço dos Parlapatões, propõe trazer o universo conturbado de Francis Bacon, um dos pintores mais interessantes e inquietantes da modernidade aos dias atuais. Em cena, Edi Botelho elabora, diametralmente, contraposições entre corpo e fala, narrando pensamentos e sensações, valorizando as minúcias e particularidades que fizeram do artista irlandês personagem único de seu tempo (1902-1992).

Dois são os princípios explorados: a construção de uma atmosfera que represente o interior do personagem e o discurso de uma fala que vai além da retórica para se aproximar da persona do artista. E se dois são os valores constituintes da cena, elege-se, simultaneamente, duas outras inquietações: como dar conta de representar a pintada desfiguração do corpo humano e o universo sensorial de Bacon?

Tarefa difícil, o trabalho esbarra na condição da limitação dos corpos em ir além de suas capacidades físicas. Não é possível desfigurar um rosto além da realização simplista de uma careta, ou torcer um tronco além do curvar e expandir tais como conhecemos. Bacon problematizara a identidade do homem moderno através da deformação dos rostos, membros, posturas, em violenta ação pictórica, na qual as cores servem aos berros e desejos de destruição, assistindo-o gerar e sobreviver a duas guerras mundiais. São personagens de uma história híbrida entre a realidade servil em um mundo desprovido de valores e a consciência psicanalítica levada ao desespero e solidão. Em DesFigura, não poderia ser outro o caminho que a aproximação entre a dança e o corpo mídia (como nos ensinam Helena Katz e Christine Greiner). Contudo, volto a insistir, limitado a suas possibilidades reais torna-se ingênuo quando comparado aos trabalhos de Bacon, esses violentamente mais poéticos e cheios de caminhos subjetivos.

É comum e inerente ao objeto escolhido (o corpo) que tal limitação incomode. Frustra-nos à sensação de déjà vu dos movimentos, das palavras corporificadas, das repetições gestuais, dos códigos já tão banalizados por tantos e tantos usos. Frustra-nos a percepção de não poder ser outra coisa, a incapacidade em atingir a cópia plena. E terminamos por assumir o assistido como resultado possível meramente.

Há aí o afastamento perigoso nessa aceitação conformista ao destituirmos da crítica aprimoramento de seu olhar. A partitura corporal elaborada para representar a desconfiguração do humano proposta por Bacon, quase sempre se apresenta como mera torção física. Bacon não discursava simplesmente pelo destroçar das formas, e sim destas como representações do interior do Homem do século XX. Na maneira como as partituras de DesFigura surgem, limitamo-nos a assistir a deformidade do corpo e não do humano em si. Entender o humano é ir além da matéria, é desfacelar a casca para chafurdar ao íntimo daquilo que nos torna comuns em nossas diferenças. A obviedade da dança calculada, da coreografia duplicada e seguida, da imprecisão do preciso, faz com que a narrativa corporal, a transformação baconiana limite-se ao desenho da forma, da superfície. E estar na superfície é, via de regra, determinar-se superficial.

A segunda questão, o universo de Bacon, envolve outras tantas particularidades técnicas. Muitos são os espetáculos em cartaz e textos recentes debruçados sobre uma personalidade – histórica ou recente – como estratégia de discutir o Homem e a contemporaneidade. Todavia, há de se diferenciar a amplificação de uma persona para a linguagem teatral e a transformação do sujeito em personagem dramático.

Em DesFigura, assim como boa parte dos espetáculos em cartaz que se utilizam de tal premissa, não se vai além do próprio mostrar ou apresentar o homem-artista-personalidade Francis Bacon. Junta-se uma pitada de sua estética (ineficiente e reducionista), a pensamentos soltos em tom reflexivo, coleções de frases e leves intromissões da biografia íntima. Tudo certo, não fosse esse tratamento uma abordagem simplista da personagem. Não se encontra Bacon no contar a vida de Bacon. Ao contrário, desta maneira limita-o a leitura de um (no caso o dramaturgo) sem conduzir qualquer encontro mais profundo e sensivelmente particular com seu universo que o interprete diferentemente.

Faze-lo personagem não significa processar o seu encontro com o espectador. Bacon não se limita a pensamentos e estética, mas a soma de ambos decodificada sob a perspectiva da percepção do observador. Apresentar Bacon seria torná-lo signo sensível, no sentido mais íntimo e pessoal do público. Faze-nos sentir as emoções, sensações, inquietações do artista sem, necessariamente, figurar o próprio ou seus quadros para manipular nossa compreensão. Do jeito que DesFigura, e tantos outros propõem, sobra ao espectador o ouvir uma história e assistir a um personagem sem qualquer possibilidade concreta de vivenciar aquilo tudo apresentado. É literatura dramática, dramaturgia pura. O teatro, no então, pode e deve ir muito além disso...

DesFigura pertence, enfim, a gama dos espetáculos que se apropriam de complexas estruturas de pensamento, estética e comportamento, para recria-las em personagens dramáticos, sob o prisma acadêmicos, construídos numa ingênua tentativa de dar conta de todas as camadas que envolvem tais personalidades. Edi Botelho vai bem nesse encalço. Mas não chega a assustar. Assistimo-no sem deslumbramento ou fascinação, sem susto ou entorpecimento. Nada que nos leve a uma transformação incômoda, a uma desconfiguração de nossas certezas, à destruição de nossos íntimos, a trazer para nós um pouco do Bacon tão insistentemente personificado em cena. Em DesFigura , portanto, ficamos mais uma vez frente a frente a atores e seus esforços, mas muito longe de seremos invadidos por Bacon e seus berros definitivos.

10 Junho 2009

Cada vez mais expostos

Como criar um blog para cia.? A crise toda começava por aí. Fácil... Entregar a estética às mãos de Patrícia e deixar que sua precisão encontre os caminhos. E tudo bem. Mais um blog na vastidão do mundo virtual.

E como nos apresentarmos? Bem mais complicado. Decidimos por sermos revelados por aqueles que nos rodearam nesse último ano. Amigos, mais que tudo. E uma pitada de humor não custa nada a ninguém.

Obrigado Gerald, Guzik, Mário, Lúcio, Donasci, Paulinho, Patrick, Gero e Pedro. Sempre!

Agora, e cada vez mais, a Cia. de Teatro Antro Exposto ganha sua própria voz, enquanto preparamos o novo trabalho. Novo? Não gosto dessa promessa. Prefiro próximo. O próximo trabalho: EMVÃO. Isso, tudo junto mesmo.

Em meio a correria para o Rio de Janeiro e o FESTLIP. Na saudade de amigos que não encontramos por nos encondermos na sala da Rio Verde. Sempre...

Trago, ainda, os belos textos de Guzik e Mário na íntegra.

No blog há muito mais.


fui professor do gui na escola de atores wolf maya. desde o começo do curso o guri me impressionou pela seriedade e pelo talento. foi um dos pouquíssimos alunos pros quais eu dei um redondo 10. mereceu a nota ao me deixar arrepiado com sua interpretação de um dos monólogos de 'hamlet'. nunca esqueci daquela aula, nem de como aquele quase moleque encarou o "ó gigantescas legiões do céu". lá com meus botões previ que o guilherme teria uma bela carreira no teatro. mas daí ele foi parar numa novela. pensei: ferrou! (na verdade pensei outra coisa que não vou escrever aqui.) achei que o cara ia entrar naquele esquema de 'caras', 'quem', e tudo que isso implica. pois não é que estava enganado? que bom que a gente se engana às vezes. terminada a novela, em vez de gui ficar pelo rio, caçando um lugarzinho na próxima, voltou pra são paulo e se enfiou num prédio infecto da praça roosevelt pra ensaiar o primeiro trabalho que fez com ruy filho, atuando ao lado de diego torraca, na companhia antro exposto. foi o início de uma série. estão chegando agora ao quarto trabalho juntos (me corrijam se eu estiver enganado, mas acho que é isso). e gui mostra que é um ator de palco, que acredita em teatro de grupo e está disposto a lutar por seus sonhos. e aposta nesse grupo de nome esquisito, curte fazer espetáculos experimentais. se eu fosse dono de uma agência de talentos, cataria o gui e enfiaria numa clínica para disturbados mentais, pra descobrir o que um cara bonitão e talentoso como ele tem contra o esquema telenovela carioca+fama+caras. como eu sou um bicho de teatro, fico é muito feliz de ver que gente como ele e o diego, que poderiam estar circulando pelo jardim botânico, lá no rio, preferem as vielas da vila madalena e o teatro experimental. vivam eles, viva o antro exposto!
Alberto Guzik

Priscila ou Lady Nicolielo é uma garota que eu gosto muito de encontrar. Talvez porque ela sempre me transmita uma sensação inexplicavelmente boa, o que pra um sujeito como eu, é um alívio incomensurável. E ela me parece incapaz de nos desapontar.E na profissão que ela escolheu isso talvez não seja justificadamente algo muito aconselhável. Nós andamos por aí com nossas mãos exageradamente sujas por mexer demais no lixo dos sentimentos alheios. Mas eu também acho que a Priscila esconde mais do que ela nos deixa perceber. Então fica por aí, Garota. Vou ficar de olho nas suas unhas quando estiver segurando o copo de cerveja. Tenho certeza que elas não vão ficar impecáveis por muito tempo.
Mário Bortolotto